Crónicas de Angola

RETRATOS DA BERMA DA ESTRADA

Há momentos em que as palavras se tornam pequenas diante da grandiosidade da vida. É assim em Angola, onde cada olhar, cada ruga, cada sorriso conta histórias que nenhum texto pode traduzir. Numa recente viagem a Malanje fiz centenas de fotos, e nelas há uma sequência que captura um ritual quotidiano peculiar: ao longo das bermas das estradas, metros de mandioca estendem-se ao sol, criando um mosaico branco sobre o asfalto negro. É uma cena que conta muito sobre a engenhosidade e a necessidade mas também a força, a beleza, a resiliência… a pobreza e a miséria. Não há como ignorar!

O processo começa nos campos, onde a mandioca cresce pacientemente durante dezoito meses debaixo da terra vermelha. Após a colheita, as raízes são transportadas para casa, onde começa a sua transformação. Em bidões de plástico recuperados - antigas embalagens de óleo ou outros produtos - a mandioca é cuidadosamente lavada e demolhada durante 3 dias.

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09.jpegEntre as imagens de mandioca a secar, capturo também os rostos daqueles que mantêm este ciclo vivo. São rostos marcados pelo tempo e pela resignação, que carregam histórias de luta e sobrevivência. Não são apenas imagens, são vidas. São mãos calejadas, pés descalços, pratos por vezes vazios, mas também sorrisos, abraços e olhares cheios de dignidade.6.jpeg

7.jpegNa berma da estrada, o asfalto torna-se uma ferramenta crucial neste ciclo de sobrevivência. Logo ao amanhecer, famílias inteiras espalham metodicamente os pedaços de mandioca já preparados. O asfalto, aquecido pelo sol inclemente de Angola, serve como uma imensa placa de secagem natural. É uma adaptação nascida da necessidade, uma solução engenhosa para quem aprendeu a transformar limitações em possibilidades.

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20250202_095426.jpegQuando finalmente seca, a mandioca é recolhida e levada para a moagem, ou vendida para garantir rendimento para a casa. Na moagem, a mandioca transforma-se em farinha de bombó, a base para a confeção do prato mais típico de Angola, o "funge". Este processo, aparentemente simples, é o resultado de gerações de conhecimento transmitido, de adaptação às circunstâncias, de transformar o pouco em sustento.
A realidade que documento é crua, sem retoques nem filtros. Há pobreza, há luta diária, mas há também uma força impressionante na forma como estas mulheres lutam pela sobrevivência. Nas margens do asfalto, entre a poluição dos carros que passam, desenha-se diariamente um mapa de resistência e esperança.

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20250202_095448.jpegMais palavras para quê? As fotografias dizem tudo - e gritam o que muitos preferem não ouvir. São testemunho de um povo que, tal como a mandioca que transformam, encontra forma de sobreviver com resignação e  esperança. Aqui encontramos histórias de coragem, de força, de dureza, simplicidade e resiliência da vida no interior. A realidade nua e crua, sem retoques, sem filtros.

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