Ainda não tínhamos pisado o solo angolano quando nos alertaram: "Em Angola, branco é banco". E assim, devagar, ao longo destes dois anos, fomos aprendendo a geografia peculiar desta cidade: não apenas as ruas e avenidas, mas as portagens invisíveis, as taxas fantasma que pairam no ar quente como miragens.
A corrupção de que falo não é a dos gabinetes climatizados. É aquela que veste farda desbotada, fala manso, sorri com dentadura incompleta e pede "só uma coisinha para o mata-bicho". Parece ter fome real, urgência de quem alimenta a família, e por isso mesmo desarma a indignação que trouxemos da Europa. Como odiar a necessidade? Como condenar quem improvisa sobrevivência numa economia que parece um jogo de cartas marcadas?
Aprendemos, por isso, a carregar notas de mil, de dois mil, de cinco mil kwanzas na carteira – sempre à mão, sempre prontas. O bolso da paz tornou-se um compartimento estratégico. Aprendemos que "fiscalização" é palavra de dicionário; na prática, existe apenas a dança antiga entre quem pede e quem dá, coreografada pela urgência mútua de seguir em frente. "Boas festas, chefe", "mata-bicho, patrão", "gasosa, boss" – um vocabulário de eufemismos que suaviza a dureza do real.
Mas naquela tarde de lusco-fusco, quando as sombras já engoliam os contornos da cidade e eu precisava desesperadamente de um medicamento, algo diferente aconteceu numa rotunda perto de casa. Aquela que conhecemos de cor, onde sempre estão – figuras azuis-escuras emergindo da penumbra como guardiões de um reino incerto.
O vidro desceu com a resignação de sempre. Pediram primeiro os documentos do meu marido - carta de condução, documento do carro, seguro. Enquanto ele procurava os papéis na carteira, dirigi-me aos polícias: "Por favor, não nos demorem muito. Estou doente e só viemos à farmácia buscar um medicamento."
Senti os olhos atentos examinando cada detalhe da documentação - confrontaram datas, verificaram assinaturas, compararam fotografias com rostos. Era uma verificação minuciosa, profissional. Estava tudo em ordem. Completamente em ordem.
Depois viraram-se para mim: "E a senhora, tem o passaporte?"
"Sim, claro", respondi, já procurando na carteira. Mas antes mesmo de o conseguir tirar, deram instruções ao meu marido para seguir viagem. Já não quiseram ver o meu documento.
"Pode seguir." Duas palavras que soaram como verso épico na nossa realidade cotidiana. Duas palavras que nos deixaram mudos de surpresa, porque tinham o sabor raro da correção, da dignidade profissional que pensávamos extinta.
Seguimos para casa com uma estranha leveza no peito. Não pela economia de uns kwanzas, mas pela descoberta surpreendente de que nem tudo estava perdido. De que ainda existem, escondidos entre as dobras do sistema, homens que escolhem ser polícias de verdade, mesmo quando ninguém está a ver, mesmo quando seria mais fácil estender a mão.
Talvez seja isso que Angola nos ensina todos os dias: que a esperança cresce nos lugares mais improváveis, como capim nas fendas do asfalto. Que a dignidade humana tem dessas teimosias – aparece justamente quando menos esperamos, lembrando-nos que por baixo de toda corrupção ainda pulsa algo incorruptível.
E eu, que vim de longe achando que trazia respostas, aprendo que as perguntas certas só se fazem depois de muito caminhar por estas ruas de contrastes. Aprendo que julgar é fácil, mas compreender – ah, compreender – isso exige que se tire os sapatos e se pise descalço no chão quente desta realidade complexa.
Hoje, quando passo por aquela rotunda, não vejo apenas o lugar onde "sempre estão". Vejo o lugar onde, numa noite qualquer, alguns homens me devolveram a fé na exceção que confirma a regra.
E isso, descobri, é a prova de que ainda há luz nas dobras mais escuras do sistema.