Existe um tipo raro de magia humana que não se ensina em livros nem se aprende nas escolas. É aquela capacidade de tocar o coração das pessoas apenas por existir, de transformar estranhos em amigos com a luz de um olhar, de fazer o mundo parecer menor para caber no aconchego de um abraço. É como uma força magnética invisível, uma alquimia de afetos capaz de dissolver barreiras e de construir pontes onde outros só vislumbram obstáculos. Tenho a sorte extraordinária de partilhar a vida com alguém que possui este dom raro – o meu marido, o Nuno.
O tema que inspirou esta crónica foi uma cena que presenciei recentemente, numa oficina de mecânicos de automóveis onde ele havia ido apenas uma vez. Foi um daqueles momentos épicos que me deixam sem palavras, suspendem o tempo e gravam-se para sempre na memória. Mal saiu do carro, o dono da oficina, um mauritano, aproximou-se dele com os braços abertos e um sorriso rasgado, abraçando-o com palmadas nas costas como se reencontrasse um irmão perdido após anos de dolorosa separação. Fiquei ali, dentro do carro, imóvel e fascinada, testemunhando esta coreografia sublime de afetos espontâneos que se repete na sua vida com a regularidade de um milagre quotidiano.
Não importa se pisa o mármore polido de um salão de cinco estrelas ou o chão irregular de uma tasca de bairro; se dialoga com um embaixador, um ministro ou com um vendedor ambulante que luta pelo pão de cada dia; se se dirige a conhecidos ou a completos estranhos – ele possui esta capacidade única que dissolve hierarquias e preconceitos como sal na água. Com a mestria de um ourives das emoções, faz perguntas que outros considerariam indiscretas, mas com a inocência desarmante de uma criança que apenas quer compreender os mistérios do mundo. E as pessoas, em vez de se fecharem, abrem-se como flores ao sol. Sorriem, confidenciam, partilham.
Mas há também nele um espírito travesso que dança por trás dos olhos sérios. Como um ilusionista que esconde cartas na manga, guarda sempre uma piada imprevista, uma observação absurda que transforma qualquer constrangimento numa explosão de risos. Lembro-me bem de uma vez, numa arcada dourada de Bolonha, quando ele se escondeu com a leveza marota de um duende e surgiu, inesperadamente, diante de uma turista concentrada em capturar a fotografia perfeita de um claustro. O instante foi tão deliciosamente inesperado que todos os presentes se renderam a uma gargalhada contagiante – até a própria turista, que, entre risos, acabou por posar em algumas fotos memoráveis ao lado deste estranho surpreendente que lhe oferecera um momento de puro divertimento.
O Nuno caminha pela vida, equilibrando o peso das responsabilidades com a leveza da irreverência é por isso que, aos quase 60 anos, preserva a alma de "um brincador", como diz o poema de Álvaro de Magalhães. Quando o ambiente está carregado, desdramatiza com a astúcia de um mestre zen que faz malabarismos com as próprias preocupações; quando há desânimo no ar, tem sempre uma palavra de esperança temperada com uma pitada de humor que brota como fonte em terra árida.
Ele descobriu e aperfeiçoou a fórmula secreta que Saint-Exupéry nos revelou através do Principezinho: sabe cativar com a arte suprema de quem compreende que o essencial é invisível aos olhos – e que às vezes o melhor remédio para a alma é uma boa gargalhada partilhada.
Mas talvez nada traduza melhor esta notável ligação humana do que o episódio que envolveu um jovem angolano, que cruza com ele o percurso profissional. Esse jovem sofreu um violento acidente na picada. O carro capotou e ele ficou literalmente de cabeça para baixo, preso numa situação de extremo perigo. Naqueles segundos críticos, suspenso entre o medo e a esperança, pegou no telefone. Não chamou o pai, nem a mãe, nem o irmão. A primeira pessoa a quem ligou foi ao Nuno, pedindo ajuda. Esta foi uma surpreendente prova de confiança — um testemunho espontâneo sobre a nobreza interior que nele habita, e que quase sempre lhe reconhecem, mais eloquente do que qualquer diploma.
Outra história que guardo como um tesouro aconteceu numa noite em que fomos buscar uns amigos ao aeroporto. No aeroporto há sempre uma multidão de jovens a tentar ajudar com as malas para ganharem umas moedas que façam a diferença no final do dia. Nessa noite, já era muito tarde e não apareceu ninguém. Caminhávamos os quatro pelo estacionamento mergulhado na escuridão quando ouvimos alguém ofegante que corria atrás de nós, gritando com urgência: “Chefe Nunes! Chefe Nunes!” Virámo-nos, e o meu marido, genuinamente surpreendido, perguntou: “De onde é que me conheces?” A resposta veio imediata, e espontânea parecendo carregada de uma gratidão pura: “Daqui. O senhor ajuda-me sempre...” Ali, naquela escuridão, testemunhei como a fome ensina a reconhecer - mesmo às cegas - aqueles que se distinguem como faróis de esperança num mundo frequentemente indiferente.
Poderia enumerar muitos outros exemplos desta sua presença solidária. Como daquela vez em que, ao fim da tarde, recebemos uma recenseadora do Censo Nacional para uma entrevista. Convidámo-la a entrar e a sentar-se confortavelmente. Era jovem, franzina e simpática, claramente fragilizada pela vida. No fim, quase na despedida, o meu marido perguntou, com a simplicidade de quem fala do tempo: “Já comeste hoje?” Uma lágrima rolou-lhe pela cara e começou ali a desfiar o calvário em que sempre havia vivido. Passados uns minutos, quando me apercebi, o Nuno já não estava na sala. Quando regressou, trazia um saco cheio de comida, uma garrafa de água e dinheiro discretamente escondido na mão para dar à rapariga. É sempre assim — ele tem um radar emocional que detecta, sob as camadas do pudor e da dignidade, os sinais de socorro que outros nem chegam a perceber.
Esta capacidade não é mero acaso cósmico ou golpe de sorte. É o fruto maduro de uma visão cristalina que se manifesta em cada gesto espontâneo, em cada palavra, em cada momento sagrado de atenção dedicado ao outro. Observá-lo em ação é como assistir a uma masterclass silenciosa de conexão humana, onde cada movimento é uma lição de como estar verdadeiramente presente no mundo.
A sua capacidade de adaptação camaleónica tem sido posta à prova nos cenários mais improváveis e exóticos. Em El Salvador, recordo-me de assistir, perplexa e admirada, aos funcionários de um restaurante mudarem o carro do próprio dono para que ele pudesse estacionar o seu – gesto de reverência que ele sempre recusava, com a elegância natural de quem nunca perdeu a bússola da humildade. Ali, o D. Nuno era tratado como um rei, não por exigência altiva ou pose estudada, mas porque irradiava uma autenticidade magnética que conquistava sem esforço nem cálculo.
Parte significativa desta magia deve-se também à sua admirável capacidade de falar fluentemente outras línguas, pronunciando-as com a perfeição melódica de um nativo. No Qatar, testemunhei os locais ficarem impressionados com a sua pronúncia impecável do tradicional As-salāmuʿalaykum, como se tivesse nascido entre dunas e palmeiras. Na Roménia, onde teve de cumprir uma missão delicada de apaziguamento diplomático, bastou-lhe um “Bună dimineața” afinado como chave que abre portas invisíveis.
Aqui em Angola, sou espectadora atenta de como ele se transformou num guardião silencioso dos mais frágeis, dos invisíveis que a sociedade esquece. Não distribui esmolas como quem se livra de um peso – partilha dignidade como quem oferece pérolas. O dinheiro e a comida que distribui vão sempre acompanhados de um sorriso genuíno, de uma conversa simpática, de um momento sagrado de reconhecimento mútuo, terminando sempre o diálogo com a frase-chave dos verdadeiros angolanos: “Estamos juntos”. No percurso para o trabalho, os polícias fazem-lhe sinal para parar, não para fiscalizações burocráticas enfadonhas, mas porque sabem que encontraram alguém que compreende visceralmente a luta quotidiana pela sobrevivência. Uma simples garrafa de água, ou uns kuanzas para o mata-bicho, podem parecer insignificantes — ou até corrupção — para quem nunca sentiu as feridas da necessidade.
A sua generosidade tem sempre um piscar de olho escondido. Não dá apenas – inventa formas de dar. Muitas vezes “esquece-se” de propósito de umas notas no carro, para que o motorista as encontre e sorria. Afinal, de acordo com a tradição: dinheiro achado não é roubado. É assim, com a mestria de um poeta da bondade, que transforma pequenos gestos em grandes dignidades, sem nunca ferir o orgulho sagrado de quem recebe.
O que mais me fascina neste homem que amo incondicionalmente não é apenas a sua generosidade oceânica, mas a naturalidade respirável com que a pratica. Ele não se esforça artificialmente por impressionar nem mendiga reconhecimento ou aplausos. Simplesmente existe de forma plena, autêntica, curiosa, viva. Trata cada pessoa como um livro fascinante que merece ser lido com atenção reverente e respeito absoluto. É arrojado como um explorador, mas sempre temperado com a sabedoria preventiva de quem antecipa problemas antes que nasçam.
O meu marido possui uma capacidade de compreensão do mundo e de aceitação das realidades que desafia o comum. Quando eu estrebucho indignada perante injustiças, quando reclamo como uma tempestade por situações que me doem e me deixam zangada, ele aceita e compreende, com uma serenidade budista, que o mundo não é perfeito, nunca foi e talvez nunca seja. Enquanto eu arregaço as mangas para lapidar os diamantes em bruto, ele navega entre essas imperfeições cósmicas com uma sabedoria milenar que às vezes me deixa em silêncio contemplativo. É, no fundo um filósofo com a sabedoria destilada da experiência vivida.
Nos nossos longos almoços de domingo, quando conversamos sobre tudo e mais alguma coisa durante horas que parecem minutos, temos juntos momentos de pura magia intelectual que me deixam encantada. De repente, no meio de uma pista que lanço, surgem epifanias extraordinárias que me fazem parar de comer e mergulhar profundamente no oceano dos seus pensamentos. Somos ambos conversadores ativos, e esses diálogos fluem entre nós como rios caudalosos que se encontram e se abraçam – frequentemente chegamos às lágrimas os dois, não por discordância dolorosa, mas por pura emoção avassaladora perante as ideias que partilhamos como pão sagrado. São instantes que ficam suspensos no tempo.
O Nuno é a prova viva de que podemos atravessar todas as fronteiras quando nos aproximamos dos outros com o coração verdadeiramente aberto, despido de preconceitos e armaduras. Numa época sombria em que construímos muros em vez de pontes, em que nos isolamos em bolhas claustrofóbicas, o meu marido representa uma lição preciosa como ouro: a verdadeira riqueza não está nas contas bancárias nem nos títulos emoldurados, mas em nos aproximarmos do divino pela nossa capacidade infinita de dádiva, de cativarmos e de sermos cativados pela prodigiosa diversidade caleidoscópica da experiência humana.
Claro que ninguém habita a perfeição plena – o Nuno não é uma Madre Teresa de Calcutá, mas quase. Também tem “maravilhosas imperfeições”, como diria Eduardo Lourenço sobre a alma portuguesa. Veste-se sempre com a mesma simplicidade monástica (o que, confesso, às vezes me aborrece), detesta ser interrompido quando mergulha no trabalho. É temperamental, mas o mau humor dissipa-se depressa, e tem a disciplina quase obsessiva de verificar cada detalhe como quem vigia um tesouro. Eu rio-me, respeito-lhe o espaço sagrado e sigo em frente, porque discordar dele é raro como um eclipse. E sim, há mais imperfeições encantadoramente humanas… mas não posso dizer tudo. O resto é só meu e dele.
Ele tem sido um excecional exemplo ambulante de humanismo e a prova irrefutável de que a adaptação, quando brota das raízes profundas do amor genuíno, se transforma na mais sublime e duradoura das artes.
Depois de escrever este retrato em palavras e de o reler com a alma cheia, percebo que não está concluído. Nem o passado, nem o presente, e muito menos o futuro. A vida continua — as próximas páginas permanecem em branco, à espera de protagonistas. Continuarei a escrever sobre as suas histórias, as suas poções mágicas, as ironias com que desarma o sério e o absurdo, e sobre as novas aventuras que hão de nascer nos nossos desafios pelo mundo.
E, como última linha, deixo-lhe a minha gratidão imensa — oceânica — por esta partilha tão destemida, tão nossa: por cada sorriso, por cada abraço, por cada momento de felicidade.
Obrigada, Nuno — estamos juntos.