Há coisas que me fazem questionar a sanidade do universo. Algumas estão precisamente aqui, em Angola, onde as empresas operam segundo uma ordem que ainda não consegui compreender. Há dois anos que observo isto – ora perplexa, ora maravilhada, ora absolutamente horrorizada, depende dos dias – e continua a ser um absurdo misterioso e desgastante. Salvador Dalí surpreender-se-ia com tamanha concorrência surreal.
Imaginem: ligar para uma empresa é quase como atirar uma garrafa ao mar e rezar para que alguém, algures, do outro lado, a encontre e responda. A minha placa de indução Bosch avariou. Pensei: vou ligar ao representante e pronto, resolvo o problema! Mas não. Não é, nem foi assim.
Passei um dia INTEIRO a ligar para todas as delegações. Todas. Nada. Zero. Silêncio absoluto. No dia seguinte – porque eu sou teimosa e estava em desespero à procura de uma solução para o almoço – finalmente alguém atende. E a resposta é:
"Não podemos marcar nada esta semana. São ordens."
São ordens?! Como assim, são ordens? A empresa entrou em greve? Aconteceu alguma coisa? Não. São ordens. Conforma-te e faz uma salada!
"Mas eu não tenho como cozinhar, por favor, é urgente..."
"Não posso fazer nada. Talvez o técnico lhe possa ligar."
Sim. Por favor. Imploro. Deixo o contacto e nada... vezes nada...
Ponto final. Conversa encerrada durante dias – ainda não sei quantos serão. Gestão de clientes à angolana.
A manicure virou uma saga épica. Ligo, desligam-me na cara. Ok, devem estar ocupadas, penso eu. Cinco horas depois (CINCO!) mando mensagem. Respondem passadas duas horas com uma resposta completamente ao lado do que perguntei. E pronto, acabou ali a comunicação. Nem mais nada. Rói as unhas, se queres. É tipo física quântica: o serviço existe e não existe ao mesmo tempo. Como é que lidarias com isto? Eu lido mal!!!
Mas o melhor – o MELHOR – é o técnico do ar condicionado. Recebeu adiantado e depois puf, evaporou-se. Perdeu convenientemente o telefone. Já passaram meses. Apareceu um dia, desapareceu no outro. Chega, parte mais alguma coisa para ir garantindo a receita e depois desaparece novamente. Onde está ele? Missão secreta? Programa de proteção de testemunhas? É o Houdini da refrigeração.
O ginásio onde me inscrevi tem um número de telefone lindíssimo. Pena que está permanentemente desligado. O dia inteiro. Todos os dias. Para quê colocar o número no Instagram, no Facebook e no site? É arte contemporânea? Minimalismo extremo?
Agora vem a melhor parte, a cereja no topo do bolo: o "LIGA SÓ". Ah, o famoso "liga só"! Tradução: eu não tenho saldo mas preciso de falar contigo, portanto gasta tu o teu saldo. Genial! Nunca ninguém tem saldo para ligar, mas quando precisam de nós? Aí sim, mandam logo a mensagenzinha mágica. O WhatsApp? Só é consultado uma ou duas vezes por dia porque os dados custam caro. Voltamos então aos SMS, escritos num português tão criativo que precisas de um doutoramento em criptografia para os decifrar. Juro que já recebi mensagens que pareciam código morse.
Tudo funciona assim: zero concentração nas tarefas, improvisação constante, desorganização generalizada, horários? Que horários? E no entanto, misteriosamente, as empresas sobrevivem. Têm clientes. Continuam abertas. Eu fico aqui a assistir, boquiaberta, como se estivesse num espetáculo de magia onde nunca vislumbro o truque. É desconcertante e fascinante em doses iguais.
A verdade é que isto é cultural. Para os angolanos é normalíssimo. Pressa? Não existe. O "já" desapareceu do dicionário. Os minutos são mais compridos aqui – não sei se é o calor ou se há alguma anomalia no espaço-tempo que faz o relógio andar mais devagar. Muito mais devagar. Ou talvez seja eu que ainda não aprendi a velocidade local.
É extenuante, frustrante, absurdo e patético. Testa mesmo a paciência de qualquer um. Mas ao mesmo tempo – e isto vai parecer loucura – tem uma certa dose de fascínio. Só mesmo aqui é que o impossível vira rotina e a rotina vira impossível. É um paradoxo vivo, respirante, que desafia toda a lógica ocidental de eficiência e pontualidade.
Amanhã vou tentar marcar o dentista. Desejem-me sorte. Vou precisar de muita.