Crónicas de Angola

O TRÂNSITO EM LUANDA

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Em Luanda, o trânsito é uma dança frenética, onde a cidade pulsa com uma energia quase coreografada, mas sempre imprevisível. Peões atravessam as ruas ao sabor da sua intuição, como se seguissem um compasso próprio, enquanto táxis, mototáxis e carros de vidros escuros disputam espaço num palco que desafia as regras convencionais. A condução aqui é um verdadeiro teste à coragem, à paciência e à resiliência dos recém-chegados, que rapidamente passam da surpresa à tentativa de adaptação. Para alguns, no entanto, o desafio diário deste trânsito vivo é demais – e recuam perante o absurdo que potencia picos de tensão e ataques de coração.


Para além de muito intenso o cenário das estradas é povoado por uma economia de sobrevivência que se desenrola à beira das vias. Vendedores ambulantes, com os produtos na cabeça, adensam-se junto dos carros, oferecendo de tudo: frutas, carregadores de telemóveis, garrafas ou sacos de água, amendoins, ténis, cintos e qualquer outro produto que se possa imaginar. Levam até ao cidadão as pequenas compras do dia a dia, oferecendo um serviço prático, mas, que contribui ainda mais para a desordem. Parar o carro para comprar algo é parar o trânsito agigantando o caos.


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As passadeiras são mais elementos decorativos do que referências, e a polícia? Bem, está mais ocupada em garantir a própria sobrevivência financeira do que em organizar o caos urbano. No meio deste cenário de movimentos descoordenados, surgem os icónicos "Táxis" de Luanda. Não são apenas veículos: são uma aventura. As pequenas carrinhas azuis e brancas têm espaço para vinte passageiros, mas o verdadeiro espetáculo é ver como se organiza a superlotação. A viagem começa com empurrões e cotoveladas até cada um encontrar o seu lugar. E, no verão, quando a chuva chega, Luanda desacelera. As ruas inundam-se, o trânsito abranda, e a cidade parece parar, como se a água fosse um visitante inesperado, transformando as vias em rios temporários e os telhados de zinco numa linha frágil de defesa contra a tempestade.


As mototáxis, por outro lado, oferecem uma alternativa rápida e acessível de deslocação. Numa economia onde o "desenrasca" é um imperativo de sobrevivência, qualquer pessoa pode comprar uma mota e tornar-se "piloto", independentemente de ter carta de condução ou não. As regras existem, mas são meros enfeites legais – afinal, há dinheiro a ser feito por quem fecha os olhos. Os jovens "motoboys" circulam com uma mistura de entusiasmo e imprudência, impulsionados pela adrenalina que flui pelas ruas da cidade. Sem capacetes, sem licenças e sem limites, desafiam a gravidade e as normas, tornando o trânsito um jogo constante de sorte ou azar. Ir em contra-mão é só mais uma opção de percurso.


Quando a noite cai, o cenário adensa-se. As estradas mergulham na escuridão, e as motas tornam-se sombras silenciosas, com os faróis apagados para evitarem os olhos dos ladrões. Cada curva, cada rua é um salto no desconhecido. É uma sobrevivência guiada pela sorte, onde o perigo é apenas mais um elemento na equação diária da vida em Luanda. E os peões, esses, desaparecem nas sombras. Com a pele camuflada pela noite, atravessam-se como espectros diante dos veículos, deixando como único rastro visível a velocidade com que tentam escapar aos carros.


E ainda, existem os "táxis informais". Carros comuns que ganham nova função nas mãos de jovens condutores, transformando-se em meios de transporte improvisados. Conduzir em Luanda é, no fim das contas, muito mais do que ir de um ponto ao outro – é uma experiência única, uma aventura onde o inesperado se torna a rotina, e cada viagem tem uma narrativa própria. Aqui, o trânsito não é apenas uma parte do dia. É a própria vida em movimento.



 


 


 

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