Crónicas de Angola

O TEMPO FLEXÍVEL DE ANGOLA

Viver em Angola é, acima de tudo, uma lição de paciência. É como mergulhar numa correnteza que flui ao seu próprio ritmo, sem pressas e sem hora marcada. Para quem vem de outras paragens, onde os horários são tratados com a precisão de um relógio suíço e cada minuto vale ouro, adaptar-se à flexibilidade do tempo em terras angolanas é quase uma odisseia cultural. O relógio, aqui, não é um guardião silencioso do tempo; não serve como símbolo de ordem e disciplina para marcar as horas que regem a vida diária e organizam o trabalho, o lazer e o descanso. Os angolanos veem o relógio não como um ditador da rotina, mas como um simples acessório que marca momentos, pelo que o cumprimento de prazos torna-se, muitas vezes, um conceito vago.

Desde que cheguei, vivi situações que merecem ser contadas como crónicas de uma realidade paralela. A mais recente aventura com o tempo angolano envolveu o "faz-tudo" cá de casa, uma personagem que, ao contrário do nome, raramente faz algo no momento combinado. Um dia, ele disse que estaria às 8h30 prontíssimo para resolver um pequeno conserto. Ora, o tempo passou e só às 14h apareceu, sorridente como quem chega para um café entre amigos, sem uma única menção ao atraso. Era como se o próprio dia estivesse a seu favor, conspirando para que tudo fluísse com a leveza do "não há pressa".

Mas a história não acaba aqui. No dia seguinte, o nosso "faz-tudo" prometeu voltar às 9h. Desta vez, nem sinal dele. Simplesmente evaporou-se. Reapareceu, como que por magia, no dia seguinte às 11h, precisamente quando eu já estava longe, sem qualquer hipótese de o atender. Com o mesmo ar tranquilo, sem desculpas, sem justificações, comprometeu-se a voltar no dia seguinte. Hoje, já passaram cinco dias e nem uma palavra. O conceito de "amanhã" parece estar ligado a algo mais profundo, talvez divino – só Deus sabe quando será. Ou, quem sabe, a algum impulso financeiro que o motive a finalmente reaparecer.

Para além de uma mentalidade coletiva de relativização do tempo, a rede dos transportes públicos em Angola é parte da explicação fundamental deste fenómeno. Por si só, os transportes são uma epopeia.

Há uma luta diária nas estradas repletas de carros e táxis que se enfileiram numa confusão interminável. O caos das ruas cria uma teia de dificuldades que transforma qualquer intenção pontual numa façanha quase heroica. Quem sai de casa com o firme propósito de chegar a horas muitas vezes vê-se a lutar contra um sistema desordenado que desafia o conceito de previsibilidade. Neste labirinto urbano, o tempo parece estagnar, e os minutos escorregam-nos das mãos como grãos de areia tornando a pontualidade uma arte quase esquecida.

Em Angola, o tempo não se submete a regras rígidas; simplesmente flui, desafiando cada um a descobrir até onde a paciência os levará. Aqui, a elasticidade do tempo não é um problema – é um estilo de vida. A filosofia do "talvez", "logo se vê" e "vamos com calma" impregna o quotidiano. A urgência simplesmente não existe. O ritmo é outro, mais leve, mais solto.  Enquanto nós, europeus, ficamos impacientes à medida que os ponteiros avançam sem progresso, os angolanos vivem numa aceitação quase zen. Se o trabalho não foi feito hoje, faz-se amanhã. Se não chegou a tempo, chega-se quando der. O mundo não desmorona. Para quem vive imerso neste ritmo, a vida continua a fluir, e o tempo? Esse vai-se moldando, com a flexibilidade de um rio que segue o seu curso. Em Angola, o tempo adapta-se às circunstâncias, e não o contrário.

Há uma liberdade inegável nesta forma de encarar a vida. Talvez devêssemos todos aprender com esta filosofia e, de vez em quando, deixar o relógio de lado, permitindo-nos viver o presente sem a pressão incessante dos minutos contados. É um convite a experimentar a vida com mais leveza e fluidez, a desacelerar e a saborear cada momento. Afinal, como sabemos, o tempo é uma invenção nossa – e aqui, ele flui com uma serenidade singular, quase como uma melodia suave que nos ensina a tolerar e a aceitar as imperfeições do dia a dia. entre o que foi, o que é e o que ainda está por vir... tudo a seu tempo. E nós vamos aprendendo a "estar juntos" nesta filosofia zen de aceitação e tolerância.

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