Crónicas de Angola

O "PESO" DA GASOSA

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Mergulhar em Angola foi, sem dúvida, mergulhar num novo mundo, único, onde pequenas experiências do dia a dia se tornam grandes lições de vida. Ou seja, aprendi, na prática, o “peso da gasosa” e como este conceito significa muito mais do que o que eu pensava.

Tudo começou quando nos mudámos do hotel para a nossa nova casa. Como em todas as mudanças, a primeira coisa que fizemos foi certificar-nos de que iríamos ter internet. Afinal, a comunicação com o mundo e a adaptação ao novo local de residência dependiam dela.

A equipa de técnicos do serviço de internet chegou rapidamente e, logo de início, começaram a avaliar o espaço.

Entretanto, assim que entraram, repararam que o inquilino anterior tinha deixado equipamento antigo na casa. E ali começou a marosca. Os técnicos começaram a argumentar que o equipamento era obsoleto, lento, e que, por um valor extra de 80 mil, eu poderia adquirir-lhes, ali diretamente a eles, "equipamento de primeira linha", que, supostamente, me garantiria uma ligação muito mais rápida e estável. A conversa soava convincente, mas algo me parecia fora do lugar. A insistência deles, com a promessa de algo superior, fez-me desconfiar. Naquele momento, percebi o que estava a acontecer: estavam a tentar vender-me algo que eu já tinha comprado e pago no meu contrato. A minha inexperiência no local e a minha impetuosidade levaram-me imprudentemente a desmontar a situação, sem cerimónias. Falei diretamente com eles, e expliquei que já tinha pago por um novo equipamento, como estava estipulado no contrato, e que não tinha interesse em adquirir mais nada. A tensão subiu e a conversa tornou-se ríspida, mas a minha decisão estava tomada.

No entanto, o que aconteceu a seguir foi uma verdadeira lição sobre o "peso da gasosa". Durante uma semana, a internet não funcionou. Quando tentei usar a ligação, percebi que o serviço tinha sido interrompido de forma estratégica. Alguns cabos foram cortados em locais quase indetetáveis, o que tornava quase impossível compreender onde estava o problema. A "gasosa" não era apenas uma expressão de desconforto ou de um esquema social: era uma forma de me mostrar o poder das pequenas manipulações que acontecem no dia a dia em Angola, especialmente quando não se está totalmente familiarizado com as práticas locais.

Foi uma experiência que me forçou a encarar a realidade de que, mesmo tendo evitado cair no esquema da venda do equipamento, o "peso da gasosa" de quem controla esses serviços ainda tem um impacto muito grande na nossa vida quotidiana. A experiência fez-me perceber que, neste contexto, a expressão vai além de simples negociações: é uma metáfora para o jogo de forças que se desenrola à nossa volta, muitas vezes imperceptível, mas sempre presente.

Agora, olhando para trás, entendo que a experiência foi uma verdadeira escola para os desafios que me aguardavam nesta nova jornada em Angola. Era, sem dúvida, um lembrete de que, ao chegar a um terreno desconhecido, é preciso estar preparado para as surpresas e para as lições que a vida tem para nos ensinar.

E, como lição final, aprendi que, por mais que consiga ver a marosca de longe, nunca estamos imunes ao "peso da gasosa". Porque, mesmo quando desconfiamos, há sempre uma forma de nos fazerem pagar o preço, mesmo sem o percebermos imediatamente.

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