Crónicas de Angola

FUI MÃE AOS 60 ANOS

Uma palavra pronunciada por um desconhecido pode abrir-nos uma janela inesperada para mundos que não conhecíamos. Foi isso que me aconteceu quando cheguei a Luanda e, aos 60 anos, me vi confrontada com uma forma de tratamento que me deixou entre o espanto e a emoção. "Mãe" - essa palavra que carrego como conceito sagrado mas que nunca me foi dirigida - sendo usada com naturalidade por quem mal me conhecia. Quando um homem, visivelmente mais velho do que eu, me tratou por "mãe" pela primeira vez, senti algo entre o desconcerto e o aconchego. E também uma estranha emoção de estar a ouvir, pela primeira vez, alguém dirigir-se a mim com essa palavra. E depois foi-se repetindo - no supermercado, quando peço ajuda para encontrar um produto, o empregado dirige-se a mim como "mãe"; na rua, no banco, em qualquer lugar. Para eles, é uma forma natural de respeito; para mim, de cada vez que a ouvia era como se tivessem tocado numa relíquia familiar guardada no altar mais secreto do coração, mas também como se me oferecessem uma identidade que a vida não me dera.


Venho de uma cultura onde "mãe" é um substantivo único, intransferível. Nem mesmo à minha sogra, mulher que aprendi a amar e respeitar, consegui alguma vez chamar mãe. Não por frieza, mas por reverência à memória daquela que me deu a vida e cujo nome carrego como um amuleto invisível. Para mim, mãe é sagrada e é única - há pequenas exceções que respeitam apenas à individualidade de cada um, mas a regra é essa: uma só mãe, uma só palavra para ela reservada. E devo reconhecer que essa palavra me toca e me deixa desconcertada também porque nunca a ouvi sendo-me dirigida. Não que tenha isso como mágoa - foi uma escolha de vida e simultaneamente da vida.


Foi no hotel, nos primeiros tempos desta nova experiência em terras africanas, que a descoberta se aprofundou. Um empregado começou a tratar-me por "madrinha", e a princípio sorri com a ternura da palavra. Mas a curiosidade levou-me a indagar o porquê, e foi então que descobri toda uma geografia emocional que desconhecia: "madrinha" era como um convite à proteção, um pedido silencioso de amparo, uma forma de criar laços onde aparentemente não existiam. Era uma estratégia afetiva - quando esperam que alguém os ajude, usam essa terminologia para serem protegidos.


Comecei então a perceber que estava perante um sistema de parentesco expandido, onde as palavras funcionam como pontes afetivas, criando redes de pertença que transcendem os laços de sangue. Aqui, ser "irmão" ou "irmã" é mais do que uma coincidência genética - é uma declaração de humanidade partilhada. E chamar "mãe" a uma mulher mais velha é também uma forma de reverência e respeito pelos mais velhos, reconhecendo neles um símbolo de sabedoria e experiência de vida.

As famílias desenham-se como constelações complexas, onde primas se tornam irmãs, tias se transformam em mães, e vizinhos ganham o estatuto de família. É uma teia de relações que, vista de fora, pode parecer confusa, mas que revela uma forma profundamente humana de ninguém ficar sozinho no mundo.


Esta diferença de perspetiva sobre as relações familiares manifestou-se de forma quase cómica quando perguntei à minha empregada sobre o nosso vizinho do lado. "Quem é que mora na casa ao lado?", quis saber. "É um senhor muito idoso", respondeu ela. Intrigada, perguntei que idade teria. "Uns 60 anos", foi a resposta que me deixou em choque. Olhei para o espelho nessa noite e sorri com ironia - se ele com 60 anos era "muito idoso", o que seria eu aos 61? Mas depois compreendi que talvez não se tratasse apenas de números. A idade, aqui, parece medir-se de forma diferente - pelo peso da vida carregada, pelas histórias vividas, pelo cansaço acumulado no rosto e na postura. O homem parecia ter 80 anos não pelo calendário, mas pela biografia escrita no corpo.


Há uma beleza inegável neste sistema: a ideia de que os afetos podem ser multiplicados, de que há espaço para muitas "mães" e muitos "irmãos" no coração humano. É uma forma generosa de expandir os laços familiares para além do núcleo imediato, de tecer redes de apoio através das palavras. Mas também há uma complexidade que por vezes me deixa perdida, como quem tenta decifrar um mapa escrito numa língua desconhecida. E depois há a descoberta mais desapontante: que nem sempre a humanidade que essas palavras parecem carregar corresponde à realidade das relações. Por baixo da superfície cortês de "mãe", "irmão", "madrinha", encontramos muitas vezes a mesma fragilidade humana universal - traições, falsidades, interesses disfarçados de afeto. Como se as palavras bonitas fossem apenas verniz sobre a madeira nem sempre nobre do coração humano.


Viver entre culturas é também viver entre línguas emocionais diferentes. É aprender que não há formas certas ou erradas de expressar afeto, apenas formas diferentes de desenhar a proximidade humana. Aos poucos, vou aprendendo a navegar e a aceitar este novo mapa afetivo sem perder de vista o meu próprio. Posso respeitar que me chamem "mãe" - mesmo que seja a primeira vez que escuto essa palavra dirigida a mim - sem deixar de honrar a unicidade da minha própria mãe. Posso compreender o "madrinha" como um convite à generosidade sem me sentir sobrecarregada pelo peso da expectativa.


Talvez a verdadeira riqueza de viver entre culturas esteja precisamente nisto: na descoberta, aprendizagem e aceitação de que há tantas maneiras de amar, de respeitar, de criar família, mas também na compreensão de que, por baixo de todas as diferenças culturais na forma de expressar afeto, permanece a mesma natureza humana complexa e contraditória. As culturas podem ter gramáticas diferentes para os sentimentos, mas o coração humano - com toda a sua capacidade de grandeza e pequenez - mantém-se universal.


Cada "mãe" que escuto agora é um lembrete de que estou num lugar onde o respeito se expressa através da elevação do outro ao estatuto de família. E isso, independentemente dos estranhamentos iniciais e das desilusões posteriores sobre a verdadeira profundidade dessas relações, continua a ser uma forma bonita de tentar habitar o mundo com mais proximidade e menos solidão. É também, de forma inesperada, uma oportunidade de experimentar uma identidade que a vida não me ofereceu - não como mágoa, mas como descoberta tardia de uma palavra que ressoa diferente quando finalmente chega aos meus ouvidos.


 




"As culturas são como línguas do coração - cada uma tem a sua gramática de afetos, mas todas falam da mesma necessidade fundamental: a de não estarmos sozinhos, mesmo quando essa necessidade se expressa de formas nem sempre genuínas."

 

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