"Há terras que nos transformam", foi o que me disseram antes de embarcar nesta e noutras aventuras fora do meu país, mas não fazia ideia de como isso, aqui, ecoaria dentro de mim. Não vim para julgar, muito menos para apontar dedos às realidades que encontrei. Vim de coração aberto, e Angola, com sua crueza e beleza indomada, tem-me moldado dia após dia. Aqui, o intercâmbio é generoso: dou muito, mas o que recebo de volta é imensurável. E esta troca, alimentada pelo quotidiano, faz-nos ver que partilhar, por aqui, não é mera gentileza, sentimo-la eu e o meu marido, como uma necessidade. É sobrevivência. Desde que cheguei, percebi que até o simples gesto de beber água potável carrega consigo um peso que eu nunca havia considerado.
Não vou mentir, há momentos em que me surpreendo, em que me revolto contra a resignação instalada, contra o “tá-se bem” que ecoa no ar, ou o “não te preocupes, amanhã é outro dia” que acompanha os sorrisos tranquilos. Mas aprendi que esta terra tem lições profundas para oferecer. A maior delas? A tolerância. Tal como os músculos do corpo se fortalecem com o esforço, também o espírito encontra resistência e cresce, dia após dia, perante as adversidades. Cada amanhecer é um convite para aceitar mais, e com isso ajustar a forma como vemos o mundo.
Perguntam-me porquê? Porque aqui, para muitos, a vida é uma constante luta por um salário que mal cobre as necessidades básicas. Ainda assim, há uma serenidade desconcertante: se houver comida para amanhã, isso basta. O amanhã parece uma miragem, uma possibilidade que se vive à margem, enquanto as famílias crescem ao ritmo escaldante do sol angolano. Um homem com poucos filhos é visto de soslaio – o valor de um homem aqui mede-se pelo número de filhos que tem. E as mulheres? Saltam de relação em relação, em busca daquele que será o seu “homem do sofrimento”, o parceiro com quem partilharão as adversidades da vida.
Desculpem-me se isto vos parece um exagero. Não vos conto nada além do que os meus olhos veem: fidelidade por estas bandas é uma exceção rara. Homens que mantêm várias famílias, que assumem filhos quando lhes convém, e um ciclo de responsabilidades quebradas. Por aqui, “fazer filhos” é algo tão natural quanto respirar. Jovens de 15 ou 16 anos já se veem com uma criança nos braços, sem entender como o jogo da vida os colocou ali. Uma das histórias que me contaram, talvez a mais crua, foi a da minha colaboradora doméstica. A mãe tentou avisá-la dos perigos de se aproximar de um homem, mas as palavras foram vagas e o ímpeto da juventude falou mais alto. Cinco meses mais tarde quando começou a sentir "bichos na barriga", foi deixada à mercê do destino. Pouco depois de dar à luz, lá estava ela, na estrada, com um alguidar à cabeça, vendendo garrafas de água. O pai da criança era um jovem igualmente imaturo, sem meios nem rumo. Juntos, mergulharam na tirania do dia a dia, à sombra de pais que agora tinham mais bocas para alimentar. O ciclo seguiu-se e três filhos nasceram dessa união turbulenta. O homem já morreu, mas deixou uma aritmética cruel: 18 filhos espalhados por muitas histórias, e por abandono, sem olhar para trás. A primeira família foi deixada à própria sorte, marcada pela fome e pelo vazio.
E não, isto não é um caso isolado. As mulheres, tantas vezes, são deixadas sozinhas com os filhos, voltando para casa dos pais, amontoadas num quarto minúsculo, vivendo com o que podem. Partilham uma latrina no quintal, e alimentam-se de funge, arroz e feijão. Com sorte, talvez haja uma asa de frango para dividir. E no meio desta dureza, ouço a frase que tantas vezes me é repetida: “Filhos são riqueza.” E eu, ainda estou a tentar entender o verdadeiro alcance desta máxima, sinto que talvez me escape algo. Talvez o tempo me revele o seu significado completo.
O que sei, no entanto, é que Angola nos tem dado lições que ultrapassam o que poderíamos imaginar. E nós? Retribuímos com dinheiro, atenção, formação e partilha. E se, no fim do dia, conseguimos arrancar um sorriso – seja de gratidão ou daquele típico "soube-me a pouco, quero mais" – sinto que estamos, de alguma forma, todos a ganhar. E, por agora, isso basta.