As histórias parecem ter vida própria. Invadem-me por todas as frestas da casa, como se fossem sussurros trazidos pelo vento. Vêm de todos os lados: pelo telefone, pela televisão ou pelas confissões secretas que me chegam aos ouvidos. Este mundo, tão cheio de contrastes, revela sempre algo digno de ser contado. As palavras que recebo, transformo-as em sementes, e, ao caírem no solo da imaginação, florescem em histórias que se entrelaçam com o tempo.
Hoje, trago a história de cinco irmãs. Por aqui, as famílias têm uma hierarquia sagrada; cada pessoa ocupa o seu lugar, como peça de um puzzle que não pode ser trocada sem risco de desordem ou conflito. A mais nova, ou como dizem as classes populares, a "caçule" — embora a forma correta seja "caçula" — tem uma ligação especial com a mãe já falecida. Entre murmúrios quase etéreos, a mãe continua a comunicar, enviando mensagens do além, que a irmã mais nova leva muito a sério. "Eu não sabia que os mortos podiam falar, mas eles falam", diz-me uma das irmãs do meio, verdadeiramente emocionada, com um brilho nos olhos, tão convicta de que o mundo dos vivos e dos mortos se cruza mais vezes do que imaginamos.
A última mensagem da mãe era uma reclamação. Indignada, queixava-se de estar "a dormir num lençol de água" e do estado de abandono da casa que deixara às filhas. Alarmadas, as irmãs reúnem-se de emergência, lideradas pela mais velha, aquela a quem todas devem respeito e obediência. Juntas, partem para o cemitério, onde, dois anos antes, pagaram pela construção da campa da mãe. Ao chegarem lá, encontram apenas o vazio — a campa nunca foi construída. Os coveiros, pagos sem registo formal, desapareceram como fantasmas, levando com eles o dinheiro e deixando as irmãs num novo impasse.
A descoberta lança as cinco num conflito fervoroso, e o que parecia ser um problema de maus-tratos à memória da mãe transforma-se numa disputa sobre a pequena herança. A casa, que valerá pouco mais de 500 euros, torna-se o centro de uma briga acesa, tão violenta que parece destinada a terminar em tragédia. Pragas são lançadas entre as irmãs, a raiva cresce, e o fantasma da morte espreita por entre as palavras malditas.
Angola, uma terra envolta em mistérios, vibra com histórias de maldição, feitiçaria e magia negra. Diz-se que as mulheres aqui sabem amarrar os homens com poções secretas, misturadas nas bebidas ou espalhadas pelo chão que eles pisam. Esses feitiços, que custam uns meros 200 kuanzas — cerca de 20 cêntimos —, podem ser adquiridos em qualquer mercado, e parecem ter o poder de enfeitiçar ou adoecer quem quer que os receba. Em crónicas passadas, já falei dos homens que dividem o tempo e o afeto entre várias mulheres, numa dança de silêncios e concessões. Quando tudo corre pacificamente, a magia dorme, mas basta uma faísca de discórdia para que ela desperte, e o feitiço se torne a arma secreta nas sombras das relações.
Os feiticeiros, que são também curandeiros, parecem viver por entre a linha que une a vida e o infinito, onde o horizonte se perde em sombras e segredos, e o invisível se revela aos olhos da alma. Esses mágicos, que manipulam ervas e poções fantásticas, ocupam um lugar de respeito nestes momentos críticos, quer seja por amores partidos ou corpos doentes. Quando a medicina moderna se cala e deixa todos sem respostas, as pessoas buscam neles a esperança, como se apenas o oculto soubesse onde repousa o verdadeiro alívio. Se os encantos funcionam ou não, é um mistério que continua sem resposta. O que sei, contudo, é que as histórias que me chegam são sempre de fatalidade, como se a separação entre este mundo e o outro fosse tão fina quanto a respiração que nos leva à eternidade.