
Partimos numa viagem até às Cataratas de Calandula sem saber bem o que esperar. O caminho foi revelando surpresas a cada curva, com paisagens que nos deixaram sem palavras e encontros que nos tocaram a alma.
Pelo percurso, fomos descobrindo pequenas aldeias que parecem ter parado no tempo. As habitações tradicionais, erguidas com mestria em barro e coroadas com tetos que aparentam ser de palha, contam histórias silenciosas de gerações. O cenário transporta-nos para uma Angola profunda e autêntica, mas muito pobre, longe do rebuliço citadino.


Algo me chamou especialmente a atenção na berma da estrada: mulheres estendiam mandioca sobre o asfalto quente, aproveitando a superfície lisa como área de secagem. Foi-me explicado que, sem dinheiro para comprar lonas, esta é a solução que encontraram. Aquela mandioca, depois de seca e moída, transformar-se-á em fuba de bombó para fazer o funge - prato que aprendi a conhecer como o coração da cozinha angolana, sustento e fonte de rendimento para muitas famílias.


Os buracos na estrada eram tantos que nos faziam rir - a natureza transformou-os em pequenos jardins, com plantas que teimam em crescer no meio do alcatrão. Cada buraco evitado era uma pequena vitória.
Quando finalmente chegámos ao topo das cataratas, ficámos sem fôlego. Do velho miradouro, a vista é de uma beleza arrebatadora. Mas a realidade tem dois lados - o único sanitário disponível é um contentor abandonado, sem água nem condições básicas. O cheiro nauseabundo e a falta de higiene são um triste contraste com a majestade da paisagem.
Quisemos ver as cataratas de perto, lá em baixo. Foi uma descida que me pôs à prova - sem caminhos marcados, agarrando-me a raízes e ramos, escorregando aqui e ali. O guia local, que conhece cada pedra do caminho, foi a minha salvação. Cada passo era uma aventura, cada escorregadela uma história para contar.


As Cataratas de Calandula são um tesouro por lapidar. Não há infraestruturas turísticas, não há confortos modernos - há apenas a natureza em estado puro, crua, verdadeira. E talvez seja isso que as torna tão especiais. Ali, senti-me parte de algo maior, ligada com uma Angola profunda e autêntica que poucos têm o privilégio de conhecer.
Esta viagem revelou-me uma África que me fez questionar tudo o que sempre tomei como garantido. Por um lado, o coração aperta ao ver a falta de infraestruturas básicas, algo que no nosso mundo "desenvolvido" consideramos essencial. Mas por outro, encontrei ali uma pureza e uma autenticidade que já perdemos há muito nas nossas vidas modernas, formatadas e previsíveis.
Vi pessoas que, aos nossos olhos, "vivem com pouco", mas os seus sorrisos e a sua serenidade fazem-me questionar: serão eles que têm pouco, ou somos nós que nos perdemos no excesso? Entre aquelas paisagens intocadas e comunidades que vivem em sintonia com a natureza, senti uma paz que raramente encontro nas nossas cidades planeadas e repletas de comodidades.
Saí dali com sentimentos contraditórios. A vontade inicial de ver mais desenvolvimento e conforto naquele lugar foi sendo substituída pelo receio de que isso pudesse destruir precisamente aquilo que o torna tão especial. Afinal, quantos lugares mágicos já não foram transformados em destinos turísticos despersonalizados, onde a autenticidade se perde em nome do conforto?
Esta experiência será para sempre recordada, não apenas pela beleza selvagem de Angola, mas por me ter mostrado, mais uma vez, que nem sempre o progresso significa evolução, e que por vezes, é na simplicidade que encontramos a verdadeira riqueza da vida.