O sol inclemente de Angola queimava-me a pele, enquanto o suor me escorria pela testa. Mas nada disso importava. O entusiasmo de finalmente conhecer as lendárias Pedras Negras de Pungo Andongo, em Malanje, sobrepunha-se a qualquer desconforto.
A primeira visão das rochas deixou-me sem palavras. Imponentes, misteriosas, erguiam-se na paisagem árida da savana como gigantes adormecidos. O contraste entre o negro maciço das pedras e o dourado das terras secas fazia parecer que estava dentro de uma pintura surrealista. Tirei dezenas de fotografias, mas nenhuma conseguia captar a magnitude daquilo que estava a presenciar – e sobretudo a sentir. Uma mistura de admiração e humildade perante algo tão grandioso e ancestral.
Estas formações rochosas, esculpidas pelo vento e pela chuva ao longo de milhões de anos, guardam histórias de resistência. Foi ali que o Reino do Ndongo, governado pelo célebre Ngola Kiluanje e, mais tarde, pela indomável Rainha Njinga, enfrentou a ocupação colonial portuguesa. As pedras, testemunhas silenciosas de batalhas e lendas, assumem formas enigmáticas que alimentam a crença em espíritos ancestrais.

Decidimos subir ao topo. Não era uma escalada difícil, mas o acesso transformava tudo num desafio. A picada – nome dado às estradas de terra batida em Angola – era um teste de resistência. O carro saltitava e sacudia com tal violência que, a certa altura, dei uma cabeçada no tejadilho. "Isto não é uma estrada, é um batismo de fogo!", pensei, rindo.
A passagem era tão estreita que mal cabíamos. As árvores e arbustos espinhosos arranhavam a carroçaria, deixando marcas profundas. E então, o inesperado aconteceu.
Numa curva apertada, surgiu outro jipe. Dois veículos, uma única picada, frente a frente, sem espaço para se cruzarem. Ficámos imóveis, a avaliar a situação. Os vidros escurecidos do outro jipe, típicos em Angola, escondiam quem seguia lá dentro – uma presença quase fantasmagórica sob o sol ardente.
Sem hesitar, o outro condutor começou a recuar, enfrentando quase um quilómetro de picada traiçoeira, ladeada por espinhos e buracos camuflados. A perícia e paciência exigidas eram de outro nível, mas, no fim, conseguimos passar.
No topo, a vista era arrebatadora. A savana estendia-se até ao infinito, pintada em tons quentes pelo sol abrasador. O silêncio era quase sagrado, apenas interrompido pelo vento e pelo canto distante de algumas aves.
Na descida, percebemos que a picada era demasiado longa e estreita para confiar apenas na buzina como aviso a outros veículos. Um dos nossos amigos ofereceu-se para seguir à frente a pé e sinalizar caso surgisse alguém.
Não demorou muito até que o inevitável acontecesse. Lá ao fundo, um novo jipe aproximava-se, também com vidros negros. E o nosso amigo… bem, protagonizou uma cena digna de um filme. Longe de optar por um aviso discreto, começou a saltar, a agitar os braços e a gritar como se estivesse a ser atacado por um enxame invisível.
O jipe travou abruptamente. Por um instante, houve um silêncio tenso. Depois, sem qualquer hesitação, recuou em alta velocidade, levantando uma nuvem de poeira avermelhada. Dentro do nosso carro, explodimos em gargalhadas. Só conseguíamos imaginar o pânico dos ocupantes, convencidos de que tinham encontrado um espírito da savana.
No regresso, cada paragem era uma nova oportunidade para recontar a cena, sempre com mais cor e exagero. Em algumas versões, o jipe tinha dado meia-volta e desaparecido num rasto de fumo; noutras, o nosso amigo tinha executado uma dança tribal completa, selando o destino dos aterrorizados forasteiros.
Sim, as Pedras Negras foram magníficas. Cada solavanco, cada arranhão e cada gota de suor valeram a pena. Mas quando penso nessa viagem, a paisagem, por mais impressionante que tenha sido, não é a primeira coisa que me vem à mente. O que realmente me faz rir até hoje é a imagem do nosso amigo, em plena performance teatral, e o jipe misterioso a fugir como se tivesse acabado de testemunhar uma aparição sobrenatural.
Angola dá-me imagens arrebatadoras para os olhos, mas, acima de tudo, histórias deliciosamente absurdas para contar. Daquelas que se tornam cada vez melhores cada vez que são partilhadas.
