
O sol nasceu diferente sobre Luanda. Não era o mesmo astro dourado que beijava as palmeiras da marginal – era uma esfera vermelha, pesada de presságios, que iluminava uma cidade onde o coração batia descompassado.
Tudo começou com um grito sufocado na garganta das associações de taxistas. O combustível subiu para valores que sangravam nos bolsos vazios, e diversas associações marcaram 3 dias de protesto. Mas desde o primeiro momento, a violência mostrou as suas garras afiadas.
Os manifestantes não se limitaram a parar – transformaram-se em predadores urbanos que caçavam todos os que ousavam trabalhar. Carros, autocarros, táxis e até veículos particulares tornaram-se alvos da sua fúria. Quem tentava ganhar o pão de cada dia via o seu meio de subsistência transformado em ferro retorcido e vidro partido. Os passageiros que se atreviam a entrar num táxi (os táxi são veículos de cerca de 15 lugares e constituem a rede de transportes coletivos, privada) eram agredidos como se cometessem o maior dos crimes.
Era como se alguém tivesse ateado fogo ao capim seco, e essa primeira faísca de violência contra veículos e pessoas inocentes alastrou como rastilho de pólvora por toda a cidade. O que deveria ser uma reivindicação pacífica transformou-se numa tempestade perfeita, onde os ventos da indignação sopraram mais fortes do que a razão, onde a raiva acumulada explodiu como uma panela de pressão sem válvula de escape.
Em poucas horas, o vandalismo espalhou-se como erva daninha após a chuva, rastejando pelas avenidas principais até às esquinas mais esquecidas. Supermercados e lojas tornaram-se campos de guerra onde multidões furiosas passaram como gafanhotos numa colheita – nada, absolutamente nada ficou de pé à sua passagem.
Pedras voaram pelo ar como granizo mortal, estilhaçando vidros e partindo balcões numa sinfonia de destruição. Portas arrombadas, prateleiras arrancadas das paredes. Os produtos desapareceram como água no deserto – tudo o que se podia carregar evaporou-se entre mãos ávidas e esfomeadas. O que não podia ser levado foi simplesmente destruído numa orgia de vandalismo.
Tudo foi filmado, fotografado, transmitido em direto. As redes sociais transformaram-se em janelas cruéis para o inferno urbano, onde cada saque, cada pedrada, cada momento de destruição ficou gravado para a eternidade. A ingenuidade de quem gosta de aparecer tornou-se a sua própria armadilha – rostos sorridentes carregando produtos saqueados, mãos orgulhosas erguendo troféus de vandalismo. O mesmo poder brutal das tecnologias que mostrou ao mundo o caos em tempo real serve agora de instrumento de punição: muitos cidadãos foram identificados através dos vídeos e fotografias e estão neste momento a ser procurados pela polícia.
A própria polícia fugia à frente das multidões enfurecidas, numa inversão cruel dos papéis. E no meio do caos, a ironia mais amarga: um agente da autoridade foi fotografado a saquear uma caixa de coxas de frango, transformando-se de guardião da ordem em participante da desordem. O que levou anos a construir desapareceu em minutos sob pedradas e mãos que saqueavam tudo e destruíam o resto.
Mais de um milhar de pessoas foram detidas numa operação que varreu a cidade como uma rede gigantesca. Dezenas de vidas se perderam – demasiadas vidas – incluindo um agente da autoridade. Cada coração que parou de bater transformou-se numa cicatriz que a cidade carregará para sempre, numa ferida que não sara com o tempo.
Não fechemos os olhos à realidade crua: muitos angolanos vivem numa pobreza que corrói a alma, enfrentam um custo de vida que estrangula sonhos, sobrevivem com salários que não alimentam esperanças. Essa dor é real, palpável, compreensível. Mas nada – nada – justifica que se transforme numa metralhadora de destruição que atira contra o próprio futuro do país.
Em dois dias, Angola não quebrou apenas montras e semáforos. Quebrou a confiança construída ao longo de décadas, essa arquitetura invisível mais frágil que qualquer edifício de betão. Os investidores, que ontem viam Angola como terra de oportunidades, olham hoje com os olhos de quem viu o paraíso transformar-se em campo minado. Os expatriados que trouxeram famílias inteiras, que inscreveram filhos nas escolas locais, sentem agora o chão tremer sob os seus pés e fazem contas mentais sobre bilhetes de regresso.
No meio desta destruição, milhares de angolanos perderam também os seus empregos quando as lojas onde trabalhavam desapareceram entre pedras e saques. É provável que muitas nunca mais voltem a instalar-se nos mesmos locais, e se voltarem, demorará meses ou anos. Famílias inteiras veem-se agora sem sustento, vítimas involuntárias de uma fúria que não distinguiu entre patrões e empregados, entre culpados e inocentes.
O clima económico esfria como brisa de inverno que sopra sobre todas as promessas de crescimento, sobre todos os projetos que ficaram em gavetas trancadas à chave do medo.
O fim da greve anunciada aproxima-se. Será que os ventos da violência voltarão a soprar? Angola olha para o amanhã com olhos de quem não sabe se verá o sol nascer em paz ou em guerra. O rastilho está a arder...
E no meio desta tempestade, uma ironia cruel: estes dias de fúria e destruição mancham para sempre as comemorações dos 50 anos da independência de Angola. Meio século depois de conquistar a liberdade, o país vê-se novamente em chamas, como se a história teimasse em repetir-se em tons mais sombrios.
Angola chora. Angola sangra. E nós, testemunhas desta dor coletiva, permanecemos de pé, mesmo quando o chão treme, sabendo que o amanhecer tem de vir.
Esperamos todos - que a luz regresse, que a paz volte, que desta noite escura nasça finalmente uma aurora diferente e de esperança para aqueles que a não vislumbram.
Porque mesmo nas noites mais escuras, temos de acreditar que a luz voltará.






*Este texto refere-se à greve marcada pelas associações de taxistas e aos protestos de 28 a 30 de julho de 2025.