Crónicas de Angola

A ODISSEIA DAS COMPRAS EM LUANDA

Fazer compras em Luanda não se resume a uma simples tarefa; é, na verdade, uma verdadeira odisseia que exige paciência, adaptação e, por vezes, uma boa dose de criatividade. Não basta ter dinheiro ou uma lista meticulosamente elaborada – é necessário navegar por um universo desafiante, repleto de ausências e improvisos, onde o essencial frequentemente se confunde com o impossível. Trata-se de uma maratona extenuante, onde o sucesso é tão raro quanto uma gota de chuva no deserto e o cansaço se torna um companheiro constante.

 
Mercados e feiras? Esqueça! Eles são um caos vibrante de desordem, sujidade e perigo. Uma realidade onde a higiene e a segurança parecem ter desaparecido. Para mim, representam um risco que escolho evitar. Assim, resta-me enfrentar as vendedoras à beira da estrada e os supermercados – ambos repletos de desafios que só quem vive aqui consegue realmente compreender. As bancas que vendem à beira da estrada constituem a solução mais acessível para muitos. Elas oferecem frutas e legumes dispostos em “montes” – pequenos agrupamentos de cinco ou seis peças – ou em baldes. Esses baldes e montes funcionam como unidades de medida: sem balanças à vista, é assim que se define a quantidade. O problema? Muitas vezes, os baldes estão recheados com papel amarrotado ou outros materiais para parecerem mais cheios do que realmente são. Não se trata de desonestidade – é a necessidade de sobrevivência. 

Por vezes, paro para comprar e aproveito para conversar. Gosto de ouvir as histórias e observar os rostos marcados pela vida dessas mulheres resilientes. Falamos sobre produtos que não conheço - elas mostram-me o que é novo para mim e, em troca, subtilmente partilho a importância de preservar e desinfetar os alimentos, evitando que se estraguem tão rapidamente ainda nas bancas. Elas ouvem com curiosidade e atenção, mas percebo que acham essa preocupação distante ou desnecessária. Essas breves trocas conferem um novo significado à minha rotina de compras. No entanto, há aspectos que não consigo ignorar: O peixe vendido na estrada é um exemplo gritante. Enquanto os meus olhos se deliciam com o espetáculo de alguém exibindo um choco ou um peixe-espada à beira da estrada, o meu estômago revira-se em repulsa. A minha mente não consegue deixar de imaginar as consequências para a saúde daqueles que arriscam consumir tais produtos. Aprendi isso da pior forma, pouco depois de chegar aqui, ao comprar 3 quilos de polvo no supermercado para os deitar fora horas depois. Hoje, sei que o segredo está em cultivar uma relação de confiança com o peixeiro. Combino sempre a eficácia do meu nariz com a confiança no atendente da peixaria – é a única maneira de garantir que adquiro algo que realmente vale o preço. 
Completar a minha lista de compras num único lugar raramente é possível. Cada supermercado parece ter o seu “acervo exclusivo”, e o que encontro num falta no outro. Ingredientes básicos desaparecem sem aviso prévio. A Flor de Sal, por exemplo, produzida em Angola, não aparece nas prateleiras há meses! É uma frustração constante. Além disso, os preços oscilam de maneira absurda. Uma caixa com 40 cápsulas de café pode custar 16.000 kwanzas num supermercado e 24.000 noutro! Não há lógica nem explicação; apenas a necessidade de estar sempre atenta e tentar fazer as melhores escolhas. Para mim, isso é um desafio – mas nada mais do que isso. Sei que sou privilegiada e não me posso queixar. A maioria dos angolanos não tem essa sorte. 
Os supermercados são também mais do que meros locais de compra; são pontos de encontro! Enquanto escolho, peso, pago ou procuro produtos, aproveito para estabelecer relações de confiança e trocar experiências com os empregados. É fascinante perceber como um sorriso abre portas! As pessoas aproximam-se muito simpaticamente e aproveitam para tirar dúvidas, pedir receitas ou simplesmente partilhar histórias. Cada conversa torna-se uma troca única e educativa que enche a minha alma. 
Quando finalmente volto para casa, a saga continua! Cada peça de fruta, cada legume, cada lata e garrafa precisa de ser desinfetada antes de ser guardada. Pode parecer exagero para alguns, mas estou plenamente consciente dessa necessidade – para mim, é prevenção! A febre tifoide espreita em cada fruta ou legume não tratado. Para muitos ao meu redor, essa noção é inexistente devido à falta do mais básico: água potável. Há meses que a minha "secretária do lar" não tem água canalizada em casa! Como faz? Compra água aos vizinhos que têm cisternas por 150 kwanzas por bidão! Essa água serve para tudo: cozinhar, lavar, tomar banho e até beber – depois de fervida! Como explicar a necessidade de desinfetar alimentos a alguém que mal tem água para sobreviver? E é aqui que meu sonho começa a tomar forma! 
 
Sonho com o dia em que essas lutas serão apenas memórias distantes; um dia em que todos os angolanos terão acesso a água potável, alimentos seguros e frescos e educação suficiente para compreender a importância da prevenção contra doenças. Um dia em que as feiras serão organizadas e limpas, os preços justos e as escolhas acessíveis a todos! Até lá, continuo a carregar sacos cheios de esperança e de determinação; a conversar, a partilhar o que sei – e a sonhar, acreditando que cada dia é uma nova oportunidade para construir um futuro mais justo e brilhante para todos, onde as lutas de hoje se transformem em memórias distantes e as promessas de um amanhã melhor se tornem realidade!
 



 



 

 

 


 







 

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